“Quando finalmente encontrei o nome do que eu sempre fui”

(ou: como é se descobrir superdotada depois dos 30) – Por Lea Veras

Se você está lendo isso, provavelmente já suspeitou que tem alguma “coisa diferente” rolando aí dentro. Talvez uma inquietação que nunca foi embora. Talvez um encaixe que nunca aconteceu. Ou — quem sabe — você foi uma daquelas crianças que todo mundo dizia “tem futuro!”, mas o futuro chegou e tudo o que você queria mesmo era um travesseiro macio e uma explicação plausível para por que o mundo parece tão… estranho.

Bom.

Oi.

Eu sou você.

Ou uma versão suficientemente próxima.

E sim: eu também me descobri superdotada depois dos 30.

E, honestamente, se eu pudesse voltar no tempo, eu me daria um abraço e diria:

“Lea, não é frescura. É arquitetura. This is my design.”

(Pois é, eu sou dessas que gosta de metáfora demais, faz conexões improváveis e, quando percebe, já perdeu metade da plateia. Espero que ainda tenha você aqui.)

Descobrir a superdotação na vida adulta é uma experiência quase sempre paradoxal.

De um lado, chega uma sensação de libertação:

— Ah, então era isso.
— Ah, então eu não era dramática, intensa ou “complicada”.
— Ah, então fazia sentido eu pensar mais rápido, sentir mais fundo, cansar mais cedo, me perder mais fácil e só me encontrar de vez em quando.

Do outro lado, vem o luto.

Sim, luto.

Porque ninguém te avisou que a visão que você tinha de si mesma ia morrer.
Ninguém te contou que aquela inadequação constante talvez tivesse nome.
Ninguém te ofereceu a lupa que poderia ter te ajudado a se enxergar melhor.

Você simplesmente seguiu vivendo — tropeçando nas próprias sinapses.

E aí, na vida adulta, tudo encaixa.

Tarde, mas encaixa.

Eu caí nesse assunto quase por acidente e, de repente, estava encarando o espelho com a sensação de quem abriu um arquivo confidencial com o próprio nome. E, como dizem por aí, a literatura brasileira ainda engatinha quando o tema é superdotação em adultos. Quase tudo fala de crianças, escolas, identificação precoce. A mensagem implícita parece ser:

“Se não descobriram antes dos 12, sinto muito, venceu o prazo de validade.”

Spoiler: não venceu.

A superdotação não some, não evapora, não caduca.
Ela só fica… sem legenda.

Eu passei anos me achando “muito isso”, “pouco aquilo”, “exagerada”, “interesseira em aprender”, “rápida demais”, “lenta demais para suportar ambientes lentos demais”, “intensa”, “exausta”, “estranha”, “profunda”, “superficial”, enfim — um pacote all inclusive da incongruência humana.

E quando finalmente entendi, pela via correta, técnica, clínica, científica, que meu cérebro tinha um funcionamento atípico, aconteceu uma coisa curiosa:

Eu respirei.

Pela primeira vez em muito tempo.

O que realmente muda depois da identificação

Descobrir minha superdotação adulta não me fez “melhor”.
Me fez menos perdida.

A sensação mais forte foi a de reencontrar aquela criança lá atrás, que sentia tudo demais e não sabia por quê. A identificação trouxe uma coerência interna que eu não sabia que procurava.

Mas também trouxe medo.

Medo de ser incompreendida.
Medo de virar “a arrogante”.
Medo de parecer que estou inventando moda.
Medo de contar para pessoas sem repertório para entender.

E a literatura diz: isso é comum.

Vivemos num país que ainda acha que superdotação = ser bom em tudo.
(Spoiler: não somos. Nem de longe.)

Ou que superdotados são seres autossuficientes, maduros, prontos, equilibrados, com o controle emocional de um monge budista.

A realidade?

Somos pessoas com funcionamento neurológico divergente — sensíveis, rápidas, intensas. E, muitas vezes, exaustas.


Trabalho, burnout e as expectativas dos outros

Vou ser honesta: no ambiente profissional, a descoberta tardia é um terremoto silencioso.

Eu sempre trabalhei demais.
Não porque me cobravam, mas porque eu me cobrava.

Quando eu terminava tudo rápido, vinha o clássico:

“Nossa, você faz tão bem… vou te mandar mais uma coisinha, tá?”

E você pensa:

“Não, não tá.”

Mas faz.

Porque sempre fez.

Só que a conta chega.
Cedo ou tarde.

E ninguém te avisa esse detalhe quando você descobre sua superdotação adulta:

Nem tudo que você sabe fazer precisa virar trabalho.

Alguns talentos querem virar arte.
Outros querem virar descanso.
Outros querem virar só… silêncio.

E tudo bem.


A parte sobre ajudar os outros (e por que isso mexeu comigo)

Uma das ideias mais bonitas — e mais duras — que já li sobre superdotação adulta é que muitos de nós tentam “salvar” outras pessoas superdotadas como uma forma de curar nosso eu do passado.

Eu senti isso na pele.

Depois da identificação, comecei a escrever, estudar ainda mais, produzir conteúdo, orientar adultos, participar de grupos. Era como se cada coisa construída para outra pessoa fosse também uma reparação para a adolescente que eu fui — perdida, confusa, cheia de perguntas e sem ninguém para explicar nada.

Hoje vejo isso com mais clareza.
E com mais carinho.


Nem todo mundo vai ser seu par

A revelação amarga, porém necessária:

Mesmo entre superdotados, há diferenças. Muitas.

Você pode entrar num grupo esperando “finalmente, pessoas como eu”.
E descobrir que não.
Não são iguais.
São diversas, complexas, contraditórias, humanas.

Isso pode frustrar.

Mas também liberta.

Porque te lembra que você não está procurando clones.
Está procurando espelhos.

E espelhos não precisam ser idênticos.
Só precisam refletir algo que você reconheça.


Tudo o que escrevi aqui veio da minha experiência pessoal, da minha prática atendendo adultos superdotados e do primeiro capítulo do livro Superdotação na Fase Adulta – Uma Visão Multidisciplinar para Melhor Compreender o Perfil da Pessoa Superdotada (Juruá Editora, 2024), em que a pesquisadora Denise Rocha Belfort Arantes-Brero discute a descoberta da superdotação na vida adulta e como essa identificação reorganiza história, emoções e pertencimento.


Questionário: “Será que isso também acontece com você?”

(Use como autoexploração, não como diagnóstico.)

Marque os itens que ressoam com sua experiência — pode marcar todos, pode marcar nenhum:


1. Sobre sentir-se diferente

( ) Sempre tive a sensação de ser deslocada, mesmo entre pessoas queridas.
( ) Fui chamada de intensa, dramática, sensível ou “complicada” muitas vezes.
( ) Me sinto aliviada quando encontro alguém que pensa rápido como eu.


2. Sobre a descoberta tardia

( ) Só considerei a possibilidade de superdotação na vida adulta.
( ) Senti luto por não ter sido identificada na infância.
( ) A descoberta trouxe alívio — e também medo.


3. Sobre o trabalho

( ) Costumo assumir responsabilidades demais.
( ) Já entrei em burnout por excesso de desempenho.
( ) As pessoas acham que eu dou conta de tudo. (Spoiler: não dou.)


4. Sobre relações

( ) Tenho dificuldade de explicar meu funcionamento para outras pessoas.
( ) Tenho receio de ser vista como arrogante.
( ) Encontrei conforto quando conheci outros adultos superdotados.


5. Sobre sentido e pertencimento

( ) Tenho vontade de ajudar outras pessoas superdotadas a não se sentirem tão perdidas quanto eu.
( ) Já participei (ou quero participar) de grupos ou leituras com pares.
( ) Percebi que, mesmo entre superdotados, ainda somos todos diferentes — e tudo bem.


Se você marcou muitos itens, talvez este texto esteja tocando em algo importante.
Se marcou poucos, mas eles doem — talvez esteja tocando em algo igualmente importante.

Teste de autoconhecimento para AH/SD

Este teste foi desenvolvido com base na experiência de Lea Veras e no seguinte texto:

ARANTES-BRERO, Denise Rocha Belfort. A descoberta da superdotação na vida adulta.
In: ARANTES-BRERO, Denise Rocha Belfort (Org.). Superdotação na Fase Adulta – Uma Visão Multidisciplinar para Melhor Compreender o Perfil da Pessoa Superdotada. Curitiba: Juruá Editora, 2024. Cap. 1.


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